
A gente de Troporiz (4/4)
[Texto de Felix Rodrigues Barreiros (Ortografia e gramática preservadas) - 2009]
Como todos sabem Troporiz sempre foi terra de muitos artistas, gente muito trabalhadeira, terra de muitos Moleiros como já falei, mas também de artistas como: Caçadores, Pedreiros, Carpinteiros, Marceneiros, Ferreiros, Sapateiros, Cesteiro e Costureiras...

[...] A lucilia me lembro que deu aulas em Lara e a mim e meu irmão dava aula nas férias, e aos filhos do Grosso: o Áurea era doméstica e a Landinha moça muito linda Zé e o Laureano casou com um dos caixeiros do Sr. Fonteinhas chamado de Sr. José. Mais tarde foi para Viana trabalhar nos Grandes Armazéns Pacheco e por lá ficou.
O Sr. Avelino Gonçalves Geraz acabou os tempos dele no leito da cama, sofrendo muito. A razão diziam que ele tinha cantado a mulher dum cantoneiro e ela contou ao marido, e dizem que ele o esperou sozinho e lhe deu uma tremenda surra, pois a coisa foi tão bem feita que não houve testemunha.
Descendo caminho abaixo chegamos à casa da Tia Eva do Julião, senhora muito boa e muito humilde. Muito amiga de minha Mãe a quem ela chamava de Nininha, pois dependia muito da ajuda nossa e a nós nos tratava com muito carinho. Tinha um irmão que de vez em quando aparecia por Troporiz e a ajudava em algumas necessidades, esse irmão residia em Coimbra. A Tia Eva tinha dois filhos: Adão que andou pelo Brasil e o Manoelzinho da Eva, como era conhecido, pois era um dos bons contrabandistas. Ambos casaram na Espanha. Manoel com D. Carmem, muito amiga e boa freguesa na loja de meu Pai. O Adão casou com a Pura. O Manoel ainda anda bem de saúde e o Adão por ultimo vendia peixe em Salvaterra e que Deus o tenha em bom lugar, pois apesar de serem mais velhos que eu, éramos bons amigos.
Lado de baixo, a Tia Ana da Estrada, boa senhora e muito humilde. Mãe do Manoel chamado de "Nica". Me lembro de ele namorar com a Maria da Poupa e outro também chamado de Nica que vivia pelos lados da Espanha. E o meu amigo Cabo Lendias casado com a Irene do Careiro e a Conceição, apelidada de “Mochila“. Mulher de bom convivio, pois também levava o jantar conosco para a fabrica do Henrique da Luz para os irmãos que lá trabalhavam e muitas vezes levavam o jantar para meu Pai. Com dois filhos, a Ana Mochila e o Galego, assim era apelidado. Garoto um pouco complicado, mais tarde foi para Monção e por lá foi coveiro do Cemitério da Vila.
Um pormenor: naquela época tudo era muito difícil e de pouco recursos. Era realmente muito difícil viver. Me lembro que a Tia Ana para saber as horas se regulava pela sol, pois tinha uma parte da casa que quando o sol apontava no tal lugar ela sabia que horas eram para levar o jantar aos filhos. Isso para nós era muito engraçado e muitas vezes fomos ver de perto as horas, isso quando havia sol. O que realmente é realidade pois aqui em Niterói no Forte de Santa Cruz tem um relógio feito da pedra aonde o sol marca as horas, veio de Portugal tal relógio.
Abaixo a casa dos Santa Marta, família também de poucos recursos e grande família com os filhos: Sebastião, que muitas vezes vimos saltar da Ponte de Rebouças para o Rio, ainda vive em Ganfei. Para nós era uma grande aventura. A Filomena teve um filho do falecido Nacho Conceição, de mocidade complicada quando namorava o rapaz de Lapela chamado Zé do Engenho, o Miguel e o Zé com quem a gente trocava pinhas mansas por pão, pois eles eram bons para subir nos pinheiros e apanhar as pinhas. Lá pelas bandas do Chico de Agara, ainda Laurinda e a Maria. Me lembro que ela quando criança teve um acidente em volta da lareira e se queimou na cabeça onde ficou com uma cicatriz. Eram realmente muito simples, mas todos por ai estão com boas famílias e que bem tratados são pelos filhos.
Ao lado, a casa do Eido, aonde eu conheci lá morando, Tia Palmira, filhas e netos, Tia Aurea e Lucilia e os netos Adão e Lucilia, pois foi de lá que a boa Tia Lucilia saiu para casar com o Castro.
Lado direito à casa do Tia Maria do Cabo, esposa do Tio João do Armeiro, pois vinha a Troporiz no Natal e Páscoa e sempre nos dava uns trocados, pois era muito amigo do meu falecido Pai. Vivia lá pelo Porto a trabalhar na Carris e diziam que ele pegou o nome de Armeiro, pois diziam que o falecido Pai consertava armas para o exercito. A filha, Tina Pensa, casada com o Zé da Chica. Bom homem ligado aos moinhos e bom carpinteiro e exímio caçador e o amigo Ernesto, de quem já falei, ótimo ferreiro. Os filhos da Tina: o Ernesto meu contemporâneo, a Celeste, o Quim e a Benvinda e uma outra que morreu, eram gêmeas, de que muito me lembro.
Casa acima construída pelo meu cunhado Manolo onde lá morou com minha irmã e lá nasceu o Mario e a Judite. Mas tarde foram para Angola e lá passou a morar o Sr. Mario Geraz, vindo do Ultramar. Anos depois, meu cunhado Manolo vendeu a casa para meu Tio Mario, casado com a Maria do Cabuco e lá nasceu a Elizabete.
Na Laje, aonde nós fomos criados, de quem já muito falei, tinha a Tia Ana do Raro, a Tia Áurea casada com o Zé da Bina, Tia Florinda Poupa casada com o Tio Porfírio, bom homem. Ainda me lembro de uma linda capa que ele tinha, chamada de ""Capa Alentejana"" e de tocar um cavaquinho. As Filhas: Maria da Poupa, Mãe do Alberto e me lembro muito longe da Vitalina morrer de parto. Era um filho que ela ia ter do Relho. E o João Taloa que mais tarde diziam ser um homem rico pois ingressou no contrabando e casou com a Mãe do Antonio da Chica, chamada de Isolina. Mas o Taloa pouco ajudou os Pais e Irmãs apesar de dizer que era abastado, pois diziam que era a mulher que não deixava dar nada aos parentes. Mas me lembro de um dia irmos passear até Cortes, juntamente com o filho que ela teve com o Lapelo, que mais tarde veio a casar com a Esperança da Orfão de Lapela, o Antonio da Chica. Ela tinha uma Venda, mas não dava a menor importância para o filho. Entramos na Venda para tomar uns copos e pouco caso fez do filho e nada lhe ofereceu.
Outra casa no mesmo lugar, onde morava a Tia Aurea e o Zé da Bina, de quem já muito falei. E ali nasceu o Né, Brasília do Céu, afilhada de minha Irmã Brasília e os gêmeos. Bons amigos o Mario e o Zé. Um deles é o mais velho pois não sei quem nasceu primeiro. No mesmo lugar, a nossa casa. Meus Pais Teotônio e Maria da Zefa, que Deus os tenha. Ali nós todos nascemos: Maria, Aurea, Brasília, Né e eu, Felix. Era muito bom morar na Laje, pois como tinha muitos moinhos e muita gente lá ia moer o milho e apanhar farinha. Lugar muito movimentado. Também por lá tinha muitos burros ou jericos, pois dali saiam carregando a farinha para diversos lugares.
Mais tarde a nossa casa serviu para acomodar todos os nossos parentes vindos de Angola. Depois, passado o tempo, todos tomaram seu rumo. Cada um procurou o melhor, infelizmente perdendo tudo em Angola. Hestão com suas vidas normalizadas.
Alem do belo Rio Gadanha, com sua Presa, aonde nós muitos banhos lá tomamos e servia para nos lavar de verão a inverno. Voltando rumo a Ponte de Rebouças, a casa do Peniche, a subida que chamavam de calçada do Peniche. Muito sofremos puxando o carrinho de mão para levar mercadoria para a loja de meu Pai e ajudar os canos de bois carregados a subir a tal calçada com piso muito deficiente. Mas nessa casa lá morou toda a família do Tio Zé do Cabo e Tia Izaura. Ali alguns filhos nasceram.
Mais tarde veio morar a filha do Peniche, a Conceição. Bela moça, pois diziam na época que a Conceição estava grávida de um rapaz de Requião, chamado Alba e o Tio Domingos parece que a tirou de casa. Ali teve a filha Saudade. Me lembro que a Conceição pedia a minha Mãe para deixar minha Irmã Brasília dormir com ela. Com certeza ficava com medo de lá ficar, pois era um casarão. Mais tarde casou com o Adão da Joana e lá nasceu a Virginia. Também lá era a Oficina do Zé da Bina, fazendo os paus de sócos.
Muitas vezes lá íamos tomar Jurupiga que o Adão nos oferecia, pois ele era um belo feitor do belo néctar. Quando eu fui a Portugal, a primeira vez, em 1965 fiz boa amizade com toda a família.
No lugar da Ponte, além da casa da saudosa Tia Manota. Mais tarde o meu amigo e cunhado Manolo, regressado de Angola ali fez uma linda casa para acomodar a família, pois como disse todos moravam na Laje. Depois eu também passei a morar na casa da Ponte sempre que vinha de férias e muito gostava de lá ficar com minha saudosa irmã Maria. Hoje lá vai nascer uma bela residência do meu sobrinho Serginho, filho do meu sobrinho mais velho, o Mario. Ali todos nós nos reuníamos. Era uma alegria ver os sobrinhos todos juntos: o Mario, a Dita, o Nando e o Joca e seus respectivos genros e noras. E ali chegando se fecha o cerco em redor da freguesia que tantas e boas recordações me trazem, e como se diz “É A Nossa Terra Natal". Resumindo, tudo na nossa Freguesia é muito lindo com gente muito inteligente aonde o nosso "ex libris" é o nosso Rio Gadanha, com seus moinhos e azenhas, não esquecendo as pessoas que em Troporiz fizeram sua história.
Como o nosso saudoso Padre Aprigio Leite Machado, homem muito bom e caridoso. Me lembro que na época da doutrina, hoje se fala catecismo, ficávamos a volta dele no salão da Igreja e ele logo começava a cochilar. E nós crianças muita graça achávamos, mas loucos para acabar a doutrina para irmos para o Rio tomar banho. Me lembro que muita gente necessitada muitas vezes chegava perto dele pedindo um pinheirinho para serrar a madeira para consertar suas casas, pois era abastado proprietário. Também na páscoa, muito gostávamos de ir a Lapela para levar as Páscoas, pois sua irmã D. Albertina e o cunhado Augusto sempre nos davam uns trocados.
Pessoa também muito querida, o saudoso Abílio de Souza, o nosso eterno, na época Sacristão. A nossa querida professora Rosa Maria, de quem eu me lembro com muita saudade, pois era uma boa Senhora. Antes uns quinze dias do exame da quarta classe, nós íamos estudar na Quinta, sua casa em Lapela. Sempre levávamos alguma coisa para comer, mas ela nos dava uma sopa quentinha e nos deixava a vontade para comer as frutas sem estragar, pois seu marido Sr. Aniceto era um homem muito sombrio e de poucas palavras. Modéstia a parte, completei a quarta classe com quatro anos de escola. Depois também o bom amigo Padre José Vilar. Era realmente muito meu amigo e deixou boas recordações, falecido recentemente
Mas Troporiz, realmente é uma terra de gente boa e encantadora e sempre temos grandes amigos, por exemplo, o mais recente Padre Salvador, homem bom e de fácil acesso, pois a todos recebe com carinho e sempre tem uma palavra amiga.
Os meus amigos e demais compatriotas, velhos e novos, onde se perguntar: como é que o Felinhos se lembra de tudo, de todos e de tantas coisas de nosso Troporiz ? talvez haja uma explicação. A pesar de boa memória, talvez pela convivência que tinha com toda gente de Troporiz, pois meu saudoso Pai Teotônio tinha uma boa loja e para lá todos iam comprar. Pois na época não tinham grandes superfícies, eram apenas pequenas Vendas nas aldeias. Eu, o caçula de cinco irmãos, sempre estava pela loja e talvez muito acarinhado pela gente da nossa terra e assim convivia muito com os mais idosos e muita coisa observava e captava suas conversas. Em além de tudo, meu saudoso Pai era uma pessoa muito estimada e respeitada da terra, apesar de ter seus defeitos, como todo ser humano tem. Era um homem bom em tempos muito difíceis, onde quase todas as famílias compravam fiado a famosa "Libreta" e as vezes levavam um ano ou mais para pagarem com o Verde Verdinho de sua colheita. Mas existiam famílias que tinhas familiares no estrangeiro, principalmente no Brasil no Natal e na Páscoa sempre mandavam uns trocados para os parentes. Me lembro bem e de muitos.
Naquela época tempos difíceis da guerra, poucos se lembram das famosas "Cadernetas" para adquirir alguns alimentos, alguns de meio quilo, outras de quarta de quilo, pois havia a caderneta urbana e a rural e muitos nem isso tinham condições de compra. E no fim do mês, me lembro que tínhamos que colar todos os recortes da caderneta em um mapa para depois fornecer as autoridades competentes. Me lembro bem das minhas Irmãs irem por essas Freguesias a fora, passando o dia inteiro por caminhos e montes para comprar milho para moer e fazer pão, pois vendíamos muito na loja. Gente tão humilde que trabalhavam o dia inteiro na lavoura para comprar um quilo de broa.
Em tempo, do outro lado da casa da Quinhas, lado esquerdo da estrada, tem a casa do Joaquim da Guilherma e Dona Maximina, pais da minha amiga Ester. Ainda me lembro de quando ele fez a casa, me parece que o pedreiro foi o Tio Albino e o carpinteiro foi a Mario do Canelas. Antes moravam no lugar da Igreja, na casa que hoje é do Manoel da Guilhermina. Na casa nova ainda me lembro do primeiro porco que lá mataram. Foi uma festa de muito convívio. Dona Maximina me presenteou com a bexiga do porco, aonde mais tarde nos divertimos na estrada. Os jovens de hoje não tem idéia da alegria de uma família e
amigos duma matança de porco e o que isso representava em fartura para uma família.
Meus amigos jovens e amigos contemporâneos da escola e das brincadeiras no nosso Rio Gadanha, esta é a historia que eu sei de Troporiz e sua boa gente, atual e as que já partiram. Daqui para a frente espero que alguém possa continuar a contar a historia de nossa Linda Terra Troporiz.
POR: FELIX RODRIGUES BARREIROS"